Pecado original

Pecado original

sábado, 27 de junho de 2026

Verona e a Memória da Europa

Como as igrejas medievais revelam a vocação espiritual, cultural e civilizacional que moldou o Ocidente.

Ao visitar ontem a Basílica de San Fermo Maggiore e, hoje, a Basílica de Santa Anastasia e a Catedral de Verona, reforçou-se em mim uma convicção que há muito se vinha consolidando: o património espiritual e cultural que os nossos antepassados, sobretudo durante a Idade Média, nos legaram constitui um dos maiores tesouros da humanidade.

Estas igrejas não são apenas monumentos de pedra. São a memória viva de uma época que se compreendia a si própria como uma obra inacabada, em permanente construção. Uma catedral não se erguia em cinco ou dez anos. Muitas levaram mais de um século a concluir. Quem lançava os alicerces sabia que dificilmente veria a obra terminada. Construía, não para si, mas para os vindouros. Havia uma consciência profunda de pertença a uma história maior do que a própria existência individual e uma vocação assumida para a transcendência.

É precisamente esta visão do tempo que impressiona. Hoje habituámo-nos ao imediato, ao efémero e ao descartável. Naquele tempo, porém, construía-se para séculos. A pedra era expressão de uma esperança que ultrapassava uma geração. A beleza não era um luxo; era uma forma de glorificar Deus e, simultaneamente, de elevar o espírito humano.

Por isso, surpreende ouvir repetir que a Idade Média foi apenas uma «idade das trevas» ou do obscurantismo. Tal afirmação revela, muitas vezes, uma incapacidade de olhar para as evidências. Basta entrar numa destas igrejas para perceber que ali convergem arquitetura, engenharia, escultura, pintura, música, teologia, filosofia e organização social de uma complexidade extraordinária. Uma civilização capaz de criar semelhante património dificilmente pode ser reduzida a um estereótipo de ignorância. Basta olhar e ver.

Recordo, por isso, as palavras de Papa João Paulo II na exortação apostólica Ecclesia in Europa, quando afirmava que a Europa continua a possuir um tesouro para oferecer ao mundo: a esperança que brota de Jesus Cristo e da herança espiritual que moldou o continente. A Igreja, dizia ele, conserva um património capaz de contribuir decisivamente para a construção de uma Europa de valores e de povos. (vatican.va)

Infelizmente, muitos europeus parecem ignorar que a história da Europa é, em larga medida, a história do cristianismo. Desconhecem que grande parte da nossa arte, da nossa cultura, das universidades, dos hospitais, das liberdades locais, da preservação do saber clássico, do desenvolvimento agrícola e do comércio floresceu graças ao trabalho paciente de mosteiros, conventos e ordens religiosas que, durante séculos, procuraram servir o bem comum e orientar a existência humana para o seu sentido último.

Naturalmente, a história europeia conheceu também conflitos, injustiças e contradições. Mas esses factos não anulam o legado extraordinário que recebemos. Pelo contrário, convidam-nos a compreendê-lo na sua complexidade e a reconhecer que a identidade europeia nasceu do diálogo fecundo entre a herança greco-romana, a tradição judaico-cristã e o génio criador das gerações medievais.

Percorrendo Verona, compreendo melhor que estas igrejas não pertencem apenas aos crentes. Pertencem à humanidade. São testemunhos de uma civilização que acreditava que o homem se realiza quando procura a verdade, cultiva a beleza e se abre à transcendência. Talvez o maior desafio da Europa contemporânea não seja construir novos monumentos, mas voltar a reconhecer o sentido daqueles que já possui. Porque um povo que perde a memória do que o formou dificilmente encontrará o caminho do seu futuro.

Francisco Vaz

27 de junho de 2026

Sem comentários:

Enviar um comentário