Pecado original

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domingo, 28 de junho de 2026

As Duas Humanidades

A ficção das duas humanidades e a verdade da única condição humana

Uma das maiores ilusões políticas, religiosas e ideológicas da história consiste em acreditar que existem duas humanidades: a dos bons e a dos maus.

Curiosamente, quem traça essa fronteira nunca se coloca do lado errado. O bem coincide sempre consigo próprio; o mal coincide invariavelmente com o outro. É uma tentação tão antiga como o Homem e tão persistente quanto as guerras, as revoluções e os fanatismos.

Cada época muda apenas os nomes. Uns falam de crentes e infiéis; outros de revolucionários e reacionários; de patriotas e traidores; de progressistas e conservadores; de oprimidos e opressores. A linguagem altera-se, mas a estrutura permanece: primeiro divide-se a humanidade em duas espécies; depois deixa de se reconhecer plenamente a humanidade daqueles que ficaram do outro lado.

É precisamente aqui que a ironia de Cervantes permanece atual. Em Don Quixote, de Miguel de Cervantes, não existem duas humanidades. Existem dois modos de olhar o mundo que habitam a mesma condição humana. Dom Quixote e Sancho Pança não são o bem e o mal. São duas dimensões inseparáveis do Homem: idealismo e realismo, sonho e prudência, entusiasmo e sensatez. Um aprende com o outro porque nenhum possui toda a verdade.

O maniqueísmo, pelo contrário, impede qualquer aprendizagem. Se o outro pertence à "outra humanidade", deixa de ser interlocutor para se tornar obstáculo. Já não é alguém a compreender, mas alguém a corrigir, converter, derrotar ou eliminar.

Talvez por isso as maiores tragédias da história tenham começado sempre pela mesma operação intelectual: deixar de falar em pessoas para falar em categorias. A partir desse momento, a consciência adormece. O indivíduo desaparece atrás do rótulo e a dignidade cede lugar à abstração. Foi assim que tantos totalitarismos e fanatismos conseguiram justificar o injustificável: antes de eliminar pessoas, eliminaram a sua humanidade.

A realidade é bem menos confortável do que as narrativas maniqueístas. Em cada ser humano coexistem generosidade e egoísmo, coragem e medo, lucidez e ilusão. Não somos Dom Quixote ou Sancho Pança; somos ambos. A condição humana não é uma mistura de contrários, mas uma simbiose de dimensões inseparáveis, cuja unidade torna possível o discernimento, a ação e o aperfeiçoamento moral.

É precisamente por isso que se torna insustentável a pretensão de dividir a humanidade entre "os bons" e "os maus". O maniqueísmo simplifica aquilo que a realidade humana revela ser irredutivelmente complexo. Cada pessoa traz em si a possibilidade do melhor e do pior; é a liberdade, exercida na responsabilidade, que determina o rumo da sua existência. A ética não é um privilégio de uma suposta humanidade dos justos, mas uma tarefa permanente de todos os seres humanos.

Talvez seja essa a mais subtil ironia de Cervantes. Dom Quixote e Sancho Pança não representam duas humanidades, nem dois mundos inconciliáveis. Representam a unidade profunda da condição humana. Quem insiste em dividir o mundo entre puros e impuros, justos e injustos, acaba por esquecer que aquilo que verdadeiramente nos une não é a perfeição, mas a comum fragilidade e a comum capacidade de nos elevarmos acima dela.

Existe apenas uma humanidade: imperfeita, livre e sempre chamada a escolher entre o bem e o mal. É precisamente essa possibilidade de escolha que fundamenta a dignidade de cada pessoa e torna impossível reduzir qualquer ser humano à caricatura de "bom" ou de "mau". A verdadeira fronteira ética nunca passa entre "nós" e "eles"; atravessa silenciosamente o coração de cada homem e de cada mulher. É nessa interioridade que se decide, a cada instante, qual das possibilidades humanas será atualizada. Não existem, pois, duas humanidades. Existe uma única humanidade, chamada incessantemente a transformar a sua fragilidade em virtude e a reconhecer no outro, mesmo quando pensa de modo diferente, um semelhante em dignidade e em destino.

Francisco Vaz

28 de junho de 2026

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