Pecado original

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sábado, 27 de junho de 2026

Verona, shakspeare e Verdi

Ou a imortalidade dos génios

Antes de entrar na Arena para assistir a Nabucco, é quase inevitável recordar que Verona é também uma cidade profundamente marcada por duas figuras que nunca chegaram verdadeiramente a viver nela, mas que a tornaram imortal: William Shakespeare e Giuseppe Verdi. Um fê-lo pela literatura; o outro, pela música. Ambos transformaram Verona num espaço simbólico onde as paixões humanas atingem a sua máxima intensidade.

Shakespeare nunca esteve comprovadamente em Verona. A cidade foi para ele uma criação imaginada, construída a partir de relatos de viajantes e de novelas italianas. Ainda assim, nenhuma outra cidade está tão associada ao seu nome. Foi aqui que situou Romeu e Julieta, Os Dois Cavalheiros de Verona e parte da ação de A Megera Domada. A Verona de Shakespeare não é um lugar geográfico, mas um arquétipo: a cidade onde o amor, a honra, a violência e a reconciliação revelam a profundidade da condição humana.

Verdi, pelo contrário, esteve diversas vezes em Verona. Regeu e assistiu a representações das suas óperas no Teatro Filarmonico e manteve uma estreita relação com a vida musical da cidade. Contudo, foi depois da sua morte que Verona se tornou um dos grandes santuários da sua obra. Desde 1913, quando Giovanni Zenatello organizou a primeira representação de Aida na Arena di Verona para celebrar o centenário do nascimento do compositor, a Arena passou a ser um dos palcos verdianos mais importantes do mundo. Hoje, assistir aqui a Nabucco, Aida, La Traviata ou Rigoletto é quase um ato de peregrinação musical.

Há, porém, uma afinidade muito mais profunda entre estes dois génios do que a simples ligação a Verona.

Ambos compreenderam que a grande arte nasce da universalidade da experiência humana. Shakespeare escreveu sobre reis e mendigos, sobre amantes e assassinos, mas, em todos eles, procurou revelar o drama da liberdade humana. Verdi fez exatamente o mesmo através da música. As suas personagens não são vozes destinadas apenas ao virtuosismo vocal; são consciências em conflito, almas dilaceradas entre o dever, a ambição, o amor, o poder e o remorso.

Não é por acaso que Verdi encontrou em Shakespeare o dramaturgo que mais admirava. Via nele uma capacidade única para penetrar o mistério da alma humana. Daí nasceram três das suas obras-primas: Macbeth, Otello e Falstaff. Em nenhuma delas procurou simplesmente ilustrar o texto original; antes prolongou-o através da linguagem musical, dando voz ao que as palavras já não conseguiam dizer.

As diferenças entre ambos são igualmente reveladoras. Shakespeare exprime-se pelo Logos da palavra. O drama nasce do diálogo, da metáfora e do silêncio. Verdi exprime-se pelo Logos da música. Onde Shakespeare descreve o remorso de Macbeth, Verdi faz-nos ouvi-lo. Onde Shakespeare escreve o ciúme de Otelo, Verdi transforma-o numa tensão orquestral quase insuportável. A literatura explica; a música faz experimentar.

Existe ainda outro traço comum. Nenhum deles se limitou ao seu tempo histórico. Shakespeare escreveu para o teatro londrino do século XVI, Verdi para a ópera italiana do século XIX. No entanto, ambos continuam contemporâneos porque tocaram aquilo que permanece invariável no ser humano: a liberdade, o amor, o mal, a culpa, a esperança, o perdão e a morte.

Talvez seja essa a verdadeira razão pela qual Verona continua a ser um lugar privilegiado para pensar estes dois génios. A cidade conserva vestígios romanos, medievais e renascentistas, mas o seu património mais duradouro não é apenas arquitetónico. É espiritual. Shakespeare deu-lhe uma geografia da alma; Verdi deu-lhe uma voz. Um fez da cidade literatura; o outro fez dela música. E ambos demonstraram que a verdadeira genialidade consiste em transformar um lugar concreto num espaço universal, onde cada geração continua a reconhecer-se.

Francisco Vaz

27 de junho de 2026


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