Pecado original

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sábado, 27 de junho de 2026

Verona: um jardim, quatro símbolos

 e uma lição de humanidade

Há lugares que se visitam. Outros, porém, contemplam-se. Não apenas com os olhos, mas com a inteligência e a memória. O Jardim Vittorio Emanuele II, situado no lado poente da Arena de Verona, é um desses lugares.

Os mais distraídos talvez passem por ele sem reparar. No entanto, em poucas dezenas de metros, encontram-se reunidos quatro símbolos que parecem condensar toda a condição humana: um memorial aos mártires dos campos de extermínio nazis; um monumento aos soldados que tombaram pela liberdade; a majestosa Arena de Verona; e os cinco anéis olímpicos, símbolo da fraternidade entre os povos através do desporto.

Não creio que seja apenas uma coincidência urbanística. É como se a cidade tivesse inscrito, neste espaço, uma verdadeira pedagogia da humanidade.

A pedra que evoca Auschwitz, Dachau, Mauthausen, Bergen-Belsen, Ravensbrück ou Sachsenhausen recorda até onde pode descer uma civilização quando deixa de reconhecer, em cada pessoa, uma dignidade absoluta e inviolável. O mal manifesta-se precisamente quando o outro deixa de ser visto como um fim em si mesmo para passar a ser reduzido a um instrumento, um obstáculo ou, no limite, um inimigo a eliminar.

O memorial dedicado aos que morreram pela liberdade lembra-nos, por sua vez, que esta nunca foi uma conquista gratuita. Cada geração recebeu-a porque outras, antes dela, aceitaram pagar o seu preço mais elevado. A liberdade não é apenas um direito; é também uma responsabilidade moral que exige coragem para ser preservada.

E, contudo, mesmo no coração da barbárie, o mal nunca conseguiu alcançar uma vitória absoluta. Nos campos de concentração houve quem escrevesse poemas, quem desenhasse, quem tocasse música, quem rezasse e quem repartisse o último pedaço de pão. Gestos aparentemente insignificantes, mas que preservavam aquilo que nenhum carrasco podia destruir: a liberdade interior. A arte deixou então de ser apenas expressão da beleza para se tornar resistência da própria humanidade.

A poucos metros destes memoriais ergue-se a Arena de Verona. Durante séculos foi palco de combates e espetáculos onde a violência era entretenimento. Hoje é um dos maiores templos mundiais da música e da cultura. Ontem, ao escutar Va, pensiero, de Giuseppe Verdi, senti milhares de pessoas unidas pela mesma emoção. A Arena tornou-se símbolo da capacidade humana de transformar lugares outrora associados à violência em espaços de beleza, comunhão e esperança. Talvez seja essa uma das mais profundas vitórias da civilização.

Como se este percurso simbólico não estivesse ainda completo, surgem os cinco anéis olímpicos. Não representam apenas um evento desportivo. Representam uma ideia de humanidade. Depois da memória do mal absoluto, da memória daqueles que deram a vida pela liberdade e da celebração da arte, aparece a esperança de uma paz construída pelo encontro entre os povos.

O ideal olímpico recorda-nos que o outro não tem de ser um inimigo a destruir, mas um adversário cuja excelência nos desafia a sermos melhores. A competição deixa de significar hostilidade para se tornar reconhecimento mútuo. Vencer já não consiste em aniquilar o outro, mas em superar-se a si mesmo. A força deixa de servir a dominação para se colocar ao serviço da realização da pessoa humana.

Também por isso, o desporto, quando vivido segundo o seu espírito mais autêntico, constitui uma verdadeira escola de paz. Educa para a disciplina, para o respeito pelas regras, para a justiça, para a amizade entre os povos e para a compreensão de que o bem comum vale mais do que qualquer triunfo individual. Onde a guerra procura eliminar o adversário, o desporto procura elevá-lo, porque só um adversário digno torna possível uma vitória digna.

A tradição filosófica ensina-nos que o mal não possui substância própria. Não é um princípio do ser, mas uma privação do bem. Todavia, essa privação torna-se tragicamente real quando se traduz em escolhas humanas que recusam a verdade, a justiça e o amor. Auschwitz não foi uma fatalidade da história; foi o resultado de decisões concretas que negaram a humanidade do outro.

Por isso, o mal nunca poderá ser vencido por outro mal. Só o bem possui verdadeira capacidade criadora. Só a verdade desfaz a mentira. Só a justiça derrota a opressão. Só a beleza resiste à destruição. Só o amor restaura aquilo que o ódio procura destruir.

Talvez esta seja a mais profunda lição que Verona oferece a quem sabe parar para contemplar. Num único jardim encontram-se reunidos quatro dos mais elevados caminhos da humanidade: a memória, que impede o esquecimento; o sacrifício, que torna possível a liberdade; a arte, que eleva o espírito; e o desporto, que transforma a rivalidade em fraternidade.

Que nunca nos esqueçamos. A memória não ressuscita os mortos, mas pode salvar os vivos. E enquanto houver quem escolha a verdade, a justiça, a beleza, a amizade entre os povos e o amor, o mal jamais terá a última palavra.

Francisco Vaz

27 de junho de 2026

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