Pecado original

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domingo, 21 de junho de 2026

Teresa de Calcutá e Adolf Hitler

A liberdade humana à luz de Pico della Mirandola

Uma das mais extraordinárias intuições da tradição filosófica ocidental encontra-se no Renascimento, quando Giovanni Pico della Mirandola procurou responder a uma pergunta tão simples quanto decisiva: o que distingue verdadeiramente o ser humano de todos os outros seres?

A sua resposta continua a ecoar mais de cinco séculos depois. Segundo Pico, Deus não criou o homem com uma natureza fixa e determinada. À pedra corresponde a condição de pedra. À árvore corresponde a condição de árvore. Ao animal corresponde a condição animal. Apenas o ser humano recebeu uma condição singular: a liberdade de se construir a si mesmo.

Esta liberdade constitui simultaneamente a sua maior dignidade e o seu maior risco.

O homem pode elevar-se acima de si próprio ou degradar-se abaixo de si mesmo. Pode aproximar-se do divino ou mergulhar na animalidade. Pode participar do logos, isto é, da inteligência, da verdade, da justiça e do amor, ou entregar-se aos impulsos mais primários do instinto, da violência e da dominação.

É neste contexto que as figuras de Teresa de Calcutá e Adolf Hitler surgem como símbolos extremos das duas direções possíveis da liberdade humana.

Teresa de Calcutá representa a existência orientada para o outro. A sua vida foi uma resposta contínua ao sofrimento humano. Nos mais pobres dos pobres reconheceu uma dignidade que nenhuma miséria podia destruir. O seu agir não era movido pelo cálculo do interesse próprio, mas pela consciência de que cada ser humano possui um valor absoluto. Nela encontramos uma existência configurada pelo logos: a capacidade de reconhecer o bem e de orientar livremente a ação para esse bem.

Hitler representa o movimento oposto. Não se trata apenas de um ditador ou de um criminoso político. Representa a possibilidade de a inteligência humana se colocar ao serviço da destruição. A razão deixa de procurar a verdade para servir a ideologia. A política deixa de procurar o bem comum para se transformar numa técnica de domínio. O outro deixa de ser reconhecido como pessoa e converte-se em objeto, obstáculo ou inimigo a eliminar.

Aquilo que torna particularmente perturbadora esta realidade é o facto de ambas as possibilidades habitarem potencialmente a mesma natureza humana.

A tentação é imaginar que Teresa de Calcutá pertence a uma humanidade diferente da de Hitler. Mas Pico della Mirandola recorda-nos precisamente o contrário. O drama da condição humana reside no facto de cada pessoa transportar em si a possibilidade da elevação e da queda. A liberdade humana não está previamente orientada para o bem nem para o mal. É uma potência aberta.

Por isso, a questão decisiva não é quem somos, mas aquilo que escolhemos tornar-nos.

Cada decisão, por mais pequena que pareça, contribui para a construção da pessoa que estamos a ser. Cada ato de generosidade fortalece a capacidade de amar. Cada ato de egoísmo fortalece a capacidade de nos fecharmos sobre nós próprios. Cada gesto de verdade aproxima-nos do logos. Cada cedência à mentira aproxima-nos da desordem.

A tradição cristã designa esta orientação para a verdade como participação no Logos divino. O prólogo do Evangelho de João afirma que «no princípio era o Logos». A realidade não é fruto do acaso nem da arbitrariedade. Possui uma inteligibilidade profunda. Participar no logos significa viver de acordo com essa ordem de verdade, justiça e amor inscrita no próprio ser.

O contrário não é simplesmente a irracionalidade. É a redução da existência ao instinto.

Quando o ser humano deixa de procurar a verdade e passa a viver apenas em função da força, do poder, da sobrevivência ou da satisfação dos seus desejos, começa a abdicar daquilo que o torna verdadeiramente humano. Continua biologicamente homem, mas afasta-se da sua vocação mais elevada.

É precisamente esta possibilidade que Pico della Mirandola identifica quando afirma que o homem pode tornar-se semelhante às bestas ou semelhante aos anjos. Não porque mude de natureza, mas porque escolhe orientar a sua liberdade numa ou noutra direção.

A história do século XX oferece exemplos dramáticos desta verdade. Foi o século que produziu alguns dos maiores santos e alguns dos maiores criminosos. Foi o século de Teresa de Calcutá e de Hitler, de Maximiliano Kolbe e de Auschwitz, da dedicação absoluta ao próximo e da industrialização da morte.

Mas seria um erro considerar esta tensão apenas como um problema histórico. Ela manifesta-se diariamente na vida de cada pessoa. Em cada escolha entre servir ou dominar, compreender ou manipular, perdoar ou odiar, dizer a verdade ou mentir.

A grandeza do ser humano não consiste em ser perfeito. Consiste em poder caminhar em direção à perfeição. A sua dignidade não reside na ausência de falhas, mas na capacidade de escolher o bem. A sua liberdade não é um fim em si mesma; é a condição que torna possível a realização da sua vocação mais alta.

Entre Teresa de Calcutá e Adolf Hitler não existe apenas uma distância moral. Existe o mapa completo das possibilidades humanas.

Cada um de nós vive algures nesse espaço intermédio. Cada um de nós participa simultaneamente da fragilidade da besta e da vocação do espírito. Cada um de nós é chamado, a cada instante, a decidir se orientará a sua vida para o Logos ou para o instinto.

É nesta escolha permanente que reside toda a grandeza, toda a tragédia e toda a esperança da condição humana.

Francisco Vaz

21 de junho de 2026

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