Da Roma imperial a Napoleão e ao domínio austríaco: a história de um monumento que revela as contradições da política.
O Arco della Pace, erguido na entrada do Parco Sempione, em Milão, é um daqueles monumentos que parecem falar uma linguagem diferente da inscrita no seu próprio nome. É chamado Arco da Paz, mas a sua forma, inspirada nos arcos triunfais da Roma Antiga, evoca antes a vitória militar do que a reconciliação entre os povos.
A sua história é, aliás, profundamente reveladora. A construção iniciou-se durante o domínio de Napoleão Bonaparte para celebrar as vitórias do Império Francês. Com a derrota de Napoleão, a obra foi interrompida. Mais tarde, seriam precisamente os austríacos, vencedores das guerras napoleónicas e novos dominadores da Lombardia, a concluí-la, dedicando-a igualmente à paz. O mesmo monumento serviu, assim, para glorificar dois regimes antagónicos, ambos convencidos de que a sua vitória representava a verdadeira paz.
Este é um dos grandes paradoxos da história política. Raramente um poder se apresenta como promotor da guerra. Quase todos afirmam combater para alcançar a paz. Napoleão dizia levar à Europa os ideais da Revolução e uma nova ordem política. Os austríacos apresentavam-se como restauradores da estabilidade e do equilíbrio europeu. Antes deles, o Império Romano proclamava a Pax Romana, fruto das suas conquistas. Depois deles, quantos outros impérios, ideologias e nações justificaram as suas guerras em nome da paz?
O paradoxo é ainda mais profundo. A paz, enquanto realidade humana, não pode ser reduzida à simples ausência de combate. A ausência de guerra obtida submissão do vencido não é necessariamente paz; pode ser apenas silêncio imposto pela força. A paz autêntica exige justiça, reconhecimento da dignidade do outro e uma ordem livremente aceite. Quando nasce exclusivamente da superioridade militar, permanece sempre provisória, porque conserva em si as sementes do conflito futuro.
O Arco della Pace acaba, por isso, por testemunhar uma das maiores ambiguidades da condição humana: a facilidade com que confundimos vitória com justiça e domínio com paz. A linguagem política apropria-se das palavras mais nobres para legitimar os meios mais violentos. A guerra passa a ser apresentada como caminho inevitável para a paz, esquecendo que a violência possui uma lógica própria e tende a perpetuar-se.
Talvez seja esta a verdadeira lição daquele monumento. Mais do que celebrar os vencedores de uma época, convida-nos a desconfiar das narrativas triunfalistas da história. Os regimes sucedem-se, as bandeiras mudam, os conquistadores transformam-se em conquistados, mas todos reivindicam para si o mesmo ideal de paz. A pedra permanece; os impérios passam.
A verdadeira paz não se mede pelo número de batalhas vencidas nem pela grandeza dos monumentos erguidos em sua honra. Mede-se pela capacidade de uma sociedade construir justiça sem recorrer à violência como fundamento permanente da ordem. Enquanto a humanidade continuar a necessitar de arcos triunfais para celebrar a paz, talvez ainda não tenha compreendido plenamente o significado da própria paz.
Francisco Vaz
27 de junho de 206
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